
Hoje; por essa fresta em que o sol se faz presente sou o jurado de um confronto épico; do meu EU falso com meu EU verdadeiro. Desculpe-me a falta de gentileza; permitam-me que eu me apresente; muito prazer meu nome é... Perdoe-me, mas isso não posso responder; porém nem eu mesmo sei quem sou, mas podem me chamar de prisioneiro do calabouço. Eu quando era criança numa cidade pequena do interior costumava brincar e sorrir feliz pelas ruas daquela cidadezinha, mas mesmo assim não me sentia um pertencente daquele lugar, minha adolescência também vivi momentos maravilhosos naquele lugar, mas algo em mim voava alto e tinha grandes sonhos, sem falar que algo em mim sentia coisas que não se encaixava com aquele lugar e aquela época; houveram mudanças e eu sai daquela cidadezinha e fui viver em um lugar onde meus pequenos sonhos vi desmoronar, mas outros foram reerguidos e aquilo que sentia criou asas e se lançou ao vento da vida e é nesse vôo que vejo minha felicidade planar pelo horizonte, mas é um vôo arriscado demais para quem tem hora para pousar. É nesse calabouço frio, úmido, escuro e fétido, que meu EU de criança se defronta com meu EU de gente grande, meu EU criança agrada a maioria da população da cidadezinha, principalmente aqueles que me puseram correntes nos pés e pesos impossíveis de serem levantados por um único ser humano, mas o meu EU gente grande; esse que me faz feliz, que me descreve, que me faz respirar dia após dia; é esse que por incrível que pareça me mantém presa nesse calabouço único chamado minha verdade; e mais uma ironia surge! Preso em minha própria verdade, preso dentro de mim mesmo. Por essa mesma fresta vejo o mar imenso, livre, perfeito, às vezes ele é violento, brutal, devastador, mas ele vive sua verdade... E vejo-me preso as correntes de pessoas das quais preciso para viver, e pergunto-me até quando terei que viver um EU falso para poder sobreviver e às vezes deixar viver meu verdadeiro EU... Isso enlouquece, sufoca, entristece, irrita, faz sangrar a alma, faz perder. Às vezes tenho a sensação perturbadora que terei que matar meu verdadeiro EU, para poder viver em paz com meus carcereiros, fazer as vontades deles e não as minhas vontades, mas como alguém pode viver uma vida inteira sem ser feliz realmente, mas como libertar-me dessas correntes e dessa masmorra do medo¿ Sempre que tento desafiar meus carcereiros mostrando-os apenas um pouco do meu EU verdadeiro, sinto a guilhotina sufocando-me, mas antes que a mesma entre realmente em ação faço uma retratação pública e volto a esse calabouço que só eu conheço bem, nas noites frias de chuva sinto minhas asas querendo bater para longe em busca de fogo para se aquecer, mas olho ao redor e vejo que estou sem saída e no canto escuro choro suplicando a Deus que me mostre um caminho, um meio de fuga ou uma cura para essa coisa toda de EU criança e EU gente grande. Agora a lua se faz presente e pela fresta à vejo, sento no canto desse calabouço e de um lado vejo meus carcereiros felizes pois estou vivendo conforme aquela criança sem desejos, sonhos ou vontades; do outro lado vejo a lua se fazendo presente em pequenos feixes de luz que não me deixam matar meu EU gente grande; e com mais uma suplica à Deus em busca de felicidade plena acalmo meu coração e vou adormecendo; afinal um outro dia estar por vir; e vai ser difícil como está sendo... Afinal; não é tarefa fácil fazer um EU gente grande feliz assumir responsabilidades de um EU criança infeliz. Morgana Miranda
